mai 30 2012

Série Crônica no Curta II – Ninguém morreu

 

Ele caminhava pela rua e aquela voz nunca se calava: “Perdedor”. Olhava para os lados, mas não via ninguém que estivesse a uma distância razoável para falar tão próximo aos seus ouvidos. Parou de repente no meio do caminho entre a banca de jornais e a entrada do metrô, atraindo um misto de olhares curiosos e amedrontados.

- Pára! – gritou. – Vai embora!

Continuou seu caminho enquanto os passantes lhe abriam passagem, que ele sequer pedia. Procurou pelo pacote de cigarros no bolso da camisa, e com as mãos tremendo, acionou por umas três vezes, até que o isqueiro acendesse. “Apaga essa luz, perdedor. Apaga!”. Ele riu, primeiro em com o canto da boca e seguiu num crescente até gargalhar. Sem perceber, girava em torno de si mesmo com o isqueiro aceso. Os moleques de rua começaram a fazer pouco caso provocando-o:

- Tá chapado, tio?

- Cracolância né aqui não tio. – alertavam, mas ele não ouvia nada. Divertia-se em sua vingança. Com o isqueiro aceso começou a correr na direção do metrô e a voz continuava: “Apaga essa luz, perdedor !”. Agora a voz já saía num choro contido. Ele invertera o jogo. Agora quem tinha medo era a voz. Desceu as escadas e ganhou o hall das bilheterias. Os guardas da empresa de transportes se aproximaram e mantiveram uma distância de segurança. Não queriam intervir com violência, mas não podiam deixá-lo assustar os demais passageiros. Um dos homens aproximou-se e pediu para que ele apagasse o isqueiro. Ele não ouvia. Agora só ouvia a voz, que gritava trancada em sua agonia: “Apaga essa luz! Apaga! Apaga!”. Ele ria e respondia em volume inadequado para o ambiente.

- Tá incomodado? Quem é o perdedor agora?

- Você! Você é perdedor! Apaga essa luz! – respondia a voz, cada vez mais desesperada.

- Não apago! Você vai embora daqui, agora!

Nessa hora dois guardas imobilizaram-no e o isqueiro foi arremessado longe. Ele percebeu a multidão aglomerada em sua volta. Envergonhou-se. Deitado no chão, com as mãos presas em suas costas e todo o peso de um dos guardas sobre ele, sentiu-se ridículo.

A multidão começou a se aproximar e alguns pediam para que ele fosse solto. Aos poucos os pedidos tornaram-se mais incisivos beirando o limite do tolerável. O limite logo foi rompido e começaram as agressões verbais. Os guardas empunharam seus cassetetes e a turba desordenada começou a tentar atingi-los. Ele se remexia vigorosamente até que conseguiu desvencilhar-se. Deixou o tumulto para trás e passou a catraca de acesso à estação. Desceu as escadas correndo. O trem chegava veloz à estação. Segundos antes ele ouviu pela última vez: “Perdedor!”.

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mai 23 2012

Intentada feminina

 

Chega! Rompi com todos estes padrões. Não agüento mais me submeter a essa ditadura. O custo é muito alto. Salão toda semana – fazer unha, sobrancelha, depilação, tingir os cabelos… Simplesmente a conta não fecha. E tudo isso prá quê?

Estou farta de abrir os jornais da internet e ver as fotos das Musas do Brasileirão, As gostosas do BBB, as pilantras do Paparazzo… E querem saber por quê? Porque eu trabalho, pombas. Eu tenho mais o que fazer. Perder um dia inteiro ou uma tarde, que seja, no salão de beleza é para quem não tem mais o que fazer. Acontece que eu tenho. E muito.

Eu sei que você também dá um jeito e acaba conseguindo dar conta de tudo, mas eu estou no meu limite. Eu tento fazer tudo para diminuir o tempo que perco, mas não dá certo. Já tentei agendar horário, mas isso não funciona. Sempre tem alguém fazendo uma escova na sua frente. Tentei a tintura em casa… tá de brincadeira, né? Além de não ficar bom, no final ainda tenho que ir ao salão – com aquela cara de pateta – e ver se tem como dar um jeito na bagunça. Aff!

Não me importo se não ficar bonita aos olhos dos outros. O importante é que eu me ache bonita. E sei que o meu interior é fascinante. Afinal sou uma mulher que sabe conversar, carinhosa e, além de tudo, uma mãe dedicada.

Tá… Só uma tinturazinha. Cabelos brancos envelhecem muito e agora que já comecei a pintar, se parar vai ficar horrível. Tudo bem… fazer a sobrancelha não leva tanto tempo assim; e já que vou estar sentada fazendo a tintura, posso muito bem cuidar das unhas. Elas estão horríveis. É chato… Mas a verdade é que faço tudo isso porque gosto. E muuuuuito.

                Maria Ignez Miranda

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mai 16 2012

A reforma do Maracanã

Muita coisa mudou nestes 25 anos. Desde a grande reforma do Maracanã para a Copa de 2014, que não se falava em restauração do quinto maior do mundo. Entretanto, já era hora de cair a ficha e perceber que o futebol não atrai tanto público, quanto o empresário Ronaldo Nazário gostaria. É que com o crescimento do UFC, ver meia dúzia de marmanjos correndo atrás de uma gorduchinha é programa super ultrapassado. Nem mesmo a TV Globinho conseguiu emplacar o Campeonato Carioca. A audiência foi pífia e a criançada pede mais sangue. Não é à toa… Vendo todo o divertimento dos pais nas tardes de Domingo, quando a Globo passa as lutas do brasileirão, assistir jogo de futebol deixou de ser prioridade.  Afinal, o que pode ser mais carioca que assistir a uma luta de UFC, bebendo uma cervejinha Coca Jack3D?

Essa reforma do velho Maraca, passou da hora. Desde que ficaram evidentes as denúncias de resultados arranjados pelo bicheiro Cascatinha, que o esporte perdeu credibilidade. O rodízio arranjado de títulos entre os times de São Paulo e Rio, maculou o gosto pelo espetáculo. O jeito foi procurar uma alternativa; e o UFC surgiu nesse vazio de mercado. É um esporte confiável, afinal se o perdedor morre no final, não tem como ser arranjado, né? Se fosse como antigamente, quando o cara só ficava desacordado, ainda vá lá. Podia até acontecer… mas com essa nova regra da morte súbita obrigatória, não tem como burlar o esquema.

E o próprio Nazário afirma que essa fórmula do UFC é infalível. Presidente vitalício da Confederação Brasileira de UFC, Ronaldo afirma que ele mantinha os investimentos no futebol por puro saudosismo dos seus tempos de boleiro.  Disse ele: “Tenho um dívida eterna com o futebol. Mas nós (ele e Thor) conversamos muito e decidimos virar essa página” Como diz o ditado “saudosismo não paga conta” e qualquer investidor um dia fecharia essa torneira.

Acredito que o golpe de misericórdia ocorreu durante o show da virada, apresentado pela Rede GloboX, quando o decrépito Portiolli apresentou a final do campeonato à meia noite do dia 31. O transe da população foi tão grande, que como a luta durou mais do que o previsto, não houve queima de fogos em Copacabana (pela segunda vez, desde que essa comemoração foi criada. A primeira vez foi durante a Quarentena de verão de 2027, quando, devido a uma epidemia de Dengue, todos foram proibidos de sair de suas casas por quarenta dias).

Que o templo do futebol descanse em paz. Que venha a modernidade. Desejo muitos anos de vida ao novo Maracanã Coliseum Estádio X.

Fernando Mendes de Brito

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mai 09 2012

As janelas

Na primeira oportunidade diga sim. O “não” fecha portas e janelas que você nem sonharia que estariam abertas prá você. O “não” desleixado e impensado, dito assim… apenas pela falta de coragem de assumir os compromissos que o “sim” lhe trariam, por vezes lhe cobrará um preço no futuro. Entretanto, esse será como uma dívida oculta. Uma dívida que você vai honrar, sem nem mesmo ter conhecimento de sua existência. Não entendeu? Pois então, pense nos “nãos” ditos ao vento. O que você já perdeu por proferi-los despretensiosamente? Uma visita que você não fez… Um chope com amigos que você não foi… Um abraço que você deixou de compartilhar… Um beijo que poderia ter sido o início de uma grande relação… Ou mesmo, um até breve para quem já partiu.

Diga sim para a vida. Para o amor. Para a amizade. Para a alegria. Para o trabalho. Por que não? Diga sim, quantas vezes for necessário. Afinal qual é o grande risco disso? Você já está vivo e que tal fruir da vida tudo que ela pode lhe dar? Guarde os “nãos” para defender seus princípios. Estes sim. Estes correm grandes riscos cada vez que você transige.

Aproveite as janelas para espiar o bom da vida, pois ela passa por sua rua todos os dias. Levada pelo vento; lavada pela chuva. Depende de você querer ou não acompanhá-la. Ela pisca e você pode dizer não; ou aproveitar a oportunidade e, num salto, pular nos seus estribos e tomar o controle de sua própria vela.

Portanto abra sua janela e grite bem alto: SIMMMM!

Gomes Braga

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mai 02 2012

Gordo… tira o tubo

 

- Seu Heleno… O senhor diz que é escritor, mas nunca vejo nenhum dos seus livros por aí? Porque, hein?

Fiquei estupefato com a falta de jeito da Dona Tonha. Além de interromper minha conversa ao telefone, parece que depois que voltou de Garanhuns, tá assim: parecendo que foi Presidenta do Brasil.

- Ora, Dona Tonha. E eu vou saber? Onde a senhor a vê esses livros?

- No trem… no ônibus… em vários “lugar”… Tem um sobrinho meu, que gosta de ler, que falou que escritor daqui é muito chato.

Vixe, que agora ela pegou pesado – pensei.

- Isso acontece. Tem gente que não lê autor nacional. Mas um dia vão aprender. A senhora já ouviu falar em complexo de viralatas?

- É tipo o Complexo do Alemão?

Eita, que hoje ela tá com a macaca.

- Que Complexo do Alemão… Eu disse complexo de viralatas.

- Não. Esse eu não conheço.

Agora sempre vem o pior. Ela fica com essa carinha de que vai prestar atenção no que eu estou falando, quando na verdade ela vai é entrar no “Maravilhoso e criativo mundo de Tonha”. Mas vamos lá.

- Complexo de viralatas é uma expressão criada por um grande escritor nacional, que dizia que nós, brasileiros, sempre nos colocamos em posição de inferioridade em relação a outras nações. Como se tudo o que fosse feito lá fora, fosse melhor do que fazemos. Entendeu?

- Ahnn… – Tenho certeza que ela não sacou patavinas.

- Por isso tem gente, que nem se permite ler um autor nacional. Mas acredito que isso deverá mudar em alguns anos. Afinal o Brasil cresce e a sua cultura sempre foi um universo de criações.

- Humm… Tendi… Mas olha só. Por exemplo, aquele filme bonito… da menina que se apaixona por um vampiro. Aquele filme não é de um livro? “Molúsculu “?

Meu Deus… Onde isso vai parar… – me perguntei assustado, com o que poderia estar vindo do mundo encantado de Tonha.

- É de um livro, sim. Mas o nome é Crepúsculo.

- Ahnn… – Isso. Crepúsculo. Pois é, então. Esse filme que é do livro, nenhum brasileiro escreve. Tem que ser estrangeiro.

- Mas nós também temos livros que viram filmes de sucesso: O auto da compadecida, Lisbela e o Prisioneiro, Tropa de Elite…

- Tropa de elite eu conheço… esses outros não.

- Que seja… Mas a senhora concorda que o filme e o livro são muito bons também. Não é?

- Ah… Tropa de Elite foi muito bom. Eita, que a gente fica com uma vontade cacete de dar  um tiro naquele bandido.

- A senhora gostou porque está muito próximo da sua realidade. Muitos livros de ficção nacional, também lhe colocam dentro se sua realidade. A senhora poderá compreender melhor o que acontece à sua volta.

- Humm… Num sei, não. Eu queria que fizessem um livro brasileiro com vampiro, lobisomem…

A paciência pediu licença e foi ao banheiro.

- Taí, Dona Tonha. Vou escrever um livro assim. O que a senhora acha de um livro em que um vampiro morde um bruxinho, adoece e descobre que tem um câncer terminal. Daí, a noiva dele se vê obrigada a casar com um lobisomem, que é lutador de UFC e que disputa uma competição mortal, onde só um sobreviverá e herdará o trono de Thundera, que fica escondido em uma velha cabana.

- Nossaaaa… Esse eu quero ler.  O senhor tografa prá mim?

- Hein?

- Éééé… O senhor assina na capa?

- Tá bom, Dona Tonha… Depois que eu escrever eu autografo.

Nessa hora, percebi que meu editor ainda esperava no viva voz e fui obrigado a escutar.

- Heleno… Você é fantástico. Esse livro já tá pronto?

Como diria o gordo: Tira o tubo…

 Heleno Dias

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abr 25 2012

Série Crônica no Curta – Fale somente o indispensável

 Fale somente o indispensável – Áudio

É feio, eu sei. Mas nos dias de hoje é impossível. Você pega o elevador com um desconhecido no térreo, aperta o botão para o sexto andar e pronto.Toca o celular do cara.
Primeiro vem o incômodo. Os toques são terríveis. Todos! Sem exceção. Os que tentam ser engraçadinhos, ainda são piores. Tipo: – Atende o telemóvel.Atende o telemóvel; ou ainda: Telefonezinho tocando… uhu. É telefonezinho tocando… Páááraaa! – Você só ri na primeira vez que ouve, depois já é uma chatice.    E não tem jeito prá isso. Tentei colocar como toque uma música que eu adorava e ela já virou uma super âncora negativa. Quando eu a ouvia no rádio sentia um arrepio na espinha.Não gosto de telefone. Fixo, móvel ou telemóvel. Resultado: bani a música da minha lista de predileções. Nunca mais faço isso.
Mas o que não tem jeito mesmo é não ouvir a conversa dos outros. Pô, o sujeito atende o celular no elevador e o que você pode fazer? Tapar os ouvidos? Ele começa a falar com a mãe que tem erisipela, catarata, enxaqueca, pano branco, reumatismo, artrose ou então algum cliente que tá preso, inadimplente, cobrando mercadoria não entregue… os assuntos são os mais diversos possíveis. E você lá, tendo que escutar aquilo tudo.
Uma vez escutei a conversa de uma menina no ônibus. Ela não parava de chamar o namorado de “Nem”. Esse “denguinho” é o fundo do poço! Depois de tantos anos sendo tratadas por: “broto”, “gata”, “mina”, “ficante”, “cachorra”. A coisa foi caindo a um patamar tão baixo, que as mulheres reagiram e lançaram o poderoso e infame: “Neém”.
O poder do “Nem” vem dos possíveis complementos:
“Neém… sabe que é traído”;
“Nem… sabe que eu tô na praia”;
“Oh Nem… sabe que não lembro seu nome.”.
O Nem, nem sabe que só pode ser advérbio ou conjunção.
O bom senso manda que tenhamos muito cuidado para não incomodar os outros, mas essa regra babou. Agora todo mundo fala ao celular em qualquer lugar. Sem falar nos rádios (do tipo Nextel) onde você tem o prazer de acompanhar de camarote toda a conversa. Pergunta, resposta, críticas e comentários. E tudo temperado com um insistente e irritante piii… piii.
Acho que os celulares deveriam vir com a seguinte mensagem: Fale somente o indispensável. Afinal, hoje em dia ninguém quer conversar com o motorista mesmo.

Alexandre Vicente

Músicas: Besliscando de Paulinho da Viola e Vertigo de U2.

 

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abr 21 2012

1° Bienal Brasil do Livro e da Literatura – Brasília 18 de abril

Bienal na Esplanada dos Ministérios

No dia 18 de abril, Alexandre Vicente esteve na 1° Bienal Brasil do Livro, realizada em Brasília. Na ocasião, o autor divulgou seu livro “As cores de um crime”, que teve uma excelente aceitação pelo público.

 

Alexandre Vicente e Joaquim Nóbrega

No mesmo estande estavam outros autores independentes como o cordelista Joaquim Nóbrega  e seu “Cordel do Gonzagão em Brasília” (Casa da Memória Viva de Ceilandia, 2012); o Antropólogo João di Trindade e seu trabalho “Caderno de Anotações-Poesia Orações”; Rui Patterson e o livro “Quem Samba Fica – Memórias De Um Ex-guerrilheiro”; e Moysés André da Silva Filho, também lançando seu livro “Lições de Viver e de Morrer – Construindo Tesouros Espirituais”.

 

O evento teve a presença de várias escolas do Distrito Federal, além de descontraídas conversas com Ziraldo, Fabrício Carpinejar, Martha Medeiros, entre outros no espaço Café Literário.

 

Em entrevista concedida à Rádio Nacional o autor Alexandre Vicente apresentou seu livro e contou um pouco sobre o trabalho como escritor independente. (O áudio da entrevista está disponível no link abaixo)

 

Giovanni Motta entrevista Martha Medeiros e Alexandre Vicente para Rádio Nacional

 

Entrevista Rádio Nacional Bienal (Editado – Apenas Alexandre Vicente)

 

 

As editoras e distribuidoras estiveram presentes oferecendo os mais variados títulos para todos os visitantes.

Um evento muito bem organizado e que deverá entrar definitivamente para o calendário do Distrito Federal.

Você que ainda não tem um  exemplar do livro, pode adquiri-lo através de transferência bancária e frete grátis (após troca de mensagens com o autor pelo e-mail crdasemana@gmail.com); ou nas livrarias:

 

Eldorado – Rua Conde de Bonfim, 422 lj C, D e K – Tijuca
Leonardo Da Vinci – Av. Rio Branco, 185 – Subsolo – Centro (RJ)
Argumento Rio – Rua Dias Ferreira, 417 – Leblon
Argumento Barra – Shopping Rio Design Barra (Américas, 7777, ljs 326/330).

 

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abr 18 2012

Série Crônica no Curta – Um dia de Janeiro

 

Diário de bordo dos Brasinhas do Espaço

06:30min – Acordei mais cedo que o normal, pois quero assistir a Sessão Desenhos do canal 11. A programação começa às 07h e vai até às 19h. Desde antes de entrar de férias, que sonho com esse dia. Assistir desenhos o dia inteiro… Não tem programa melhor – Pica-pau, Mr. Magoo, Coelho Ricochete, Sansão e Golias… – Hoje só paro para almoçar, porque minha mãe não vai deixar eu assistir tudo se eu não comer.

12h30min – Putz grila… Tô cansado. Acho que não vai dar para assistir todos os desenhos. Já tá me dando dor de cabeça. Gosto do canal 11, mas também gosto da TV Globinho, que passa no canal 4; e minha mãe disse, que se eu ficar trocando de canal toda hora, vai estragar a TV. Mas eu queria ver Carangos e Motocas e ela acabou mandando eu desligar.

14h00min – Não entendo essas coisas que a mamãe inventa. Porque não posso jogar bola depois de almoçar. Tudo bem que o sol tá forte, mas tá todo mundo na rua. O Cabeção, o Gigio, Berrô, Claudinho, Bosco, Duardo… Só eu que tenho que esperar até as três horas. Tudo bem… Vou ficar jogando botão – sozinho mesmo.

17h00min – É muito bom não ter aulas… Tive que entrar agora, porque deu um pé-de-vento; e como sou muito magrinho, minha mãe tem medo de que o vento me leve. Hoje formou um redemoinho bem forte. A telha de zinco da casa da Dona Menininha voou. Minha irmã me pegou pelo braço e me trouxe prá dentro de casa.  Joguei bola a tarde toda, mas agora tenho que fazer a cópia do texto. Todo ano mamãe inventa isso de fazer cópia de texto. Ela diz: “Só pode sair depois da cópia e se a letra estiver bonita. Se fizer garrancho vai fazer tudo de novo.”

18h00min – Acabei de assistir a Turma do Lambe-Lambe, no canal 7. Hoje o Daniel Azulay ensinou a fazer um foguete com a caixa de pasta de dente. Não ficou igual, mas dá para brincar. Meu irmão voltou agora. Estava soltando pipa. Não sei como ele agüenta ficar tanto tempo soltando pipa. Ele volta com os dedos todos cortados de cerol. Prefiro jogar bola. Agora vou prá rua. Tava todo mundo jogando queimado (mas eu tava fazendo meu foguete) e agora vai ter pique bandeira. Tomara que ninguém queira brincar de carniça. Acho muito ruim essa brincadeira. Tem uns moleques que batem na gente com vontade, quando você é a carniça: “Eu bato, todo mundo bate”.

21h15min – Acabei de tomar banho e jantar. Agora vou assistir ao Chico City. Acho que não vou conseguir escrever mais nada hoje, vou acabar dormindo no meio do programa; e meu pai vai me levar prá cama no colo. Mas amanhã tem mais. Afinal estou de férias e parece que o tempo parou. Essa é a melhor época da minha vida. Acho que a vida não pode ser melhor do que isso. (Tirando a cópia do texto, que mamãe manda fazer – lógico).

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abr 11 2012

Série Crônica no Curta – A música que nunca compus

 

A música que nunca – Áudio

Dedilhei meu violão e pensei nela. Um acorde menor ecoou pela sala e esperei que ela viesse. Olhei a porta trancada e não escutei nada de novo. Podia sentir sua presença. Uma presença metafísica… Espiritual. Mas por alguma razão, que desconheço, ela teimava em não vir. Estávamos nós dois parados. Aguardando sua divina presença e graça libertadora. Naquela hora em que a inspiração nos escorre entre os dedos, o pranto também nos era fiel companheiro.
Dia após dia eu me sentava e acreditava que ela entraria como um furacão e se apresentaria de corpo inteiro. Com melodias e acordes dissonantes,  ritmo e um tempero de novidade. Mas foram-se as manhãs… As tardes… As noites e as madrugadas. Sozinhos, eu e ele nos sentávamos e assim ficávamos, até que meu violão calava-se por completo. Pela falta do que dizer ou pela falta de inspiração. Então a solidão era desértica. Tanto faz, como tanto fez.
De que valiam tantas progressões harmônicas, se a melodia era só o vazio? Mais um jogo de cordas no lixo, mais folhas pautadas amassadas pelo chão. Ideias infrutíferas muito aquém daquela que ousava me rodear e me seduzir.
Mas ela virá, como uma alucinada curva de Gaudí . Tenho certeza! Certeza? Esta não passa de uma desvalorizada moeda num mundo inexplicavelmente surpreendente. Pois então que pelo menos se tenha fé. Sendo assim: tenho fé. Ela virá e deixará em estado de meditação o mais aflito dos homens. O mais raivoso dos felinos. O mais amargo dos remédios. Suas frequências cortarão as largas avenidas lancinando toda a miséria e levarão aos humildes o conforto que lhes falta. O calor que aquece o frio ou o frescor que abranda as almas. Anjos cairão de prédios e de suas harpas a melodia se repetirá até alcançar os ouvidos de Deus, que olhará para a Terra, decadente e condenada e dirá:
- Eu lhes concedo mais uma chance. Que seja feita a vida novamente.
Assim seria a música que nunca compus.

Alexandre Vicente

Música: Villa-Lobos Bachiana Nº 5 – Quinteto Armorial

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abr 04 2012

Série Crônica no Curta – Reencontro

 

Respeito todas as religiões e credos. Acho que a fé é um combustível indispensável para enfrentarmos momentos difíceis. A crônica que escrevo agora poderia muito bem se tratar de um texto psicografado ou simplesmente da tradução de uma capacidade da mente humana de ir ao passado, ou mesmo de fazer contato com pessoas que amamos demais. Uma espécie de mediunidade.

Já sonhei coisas que me pareceram tão reais, que tomo como experiências vividas. Já toquei guitarra com os Rolling Stones num show memorável, onde surpreendentemente o meu inglês fluía com uma naturalidade, que um certo General, boquiaberto, sem que conseguisse “boquiafechar”diria: “Nunca vi semelhante coisa”.

Para situar o leitor confesso que duas coisas marcaram muito minha existência até os dias de hoje. Uma delas foi minha passagem pela Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR para os íntimos e BQ para os iniciados).

Desde que deixei aquele sítio, onde passei três anos de minha vida e onde fiz amizades fraternais que trago comigo até os dias de hoje, pelo menos duas ou três vezes ao ano, há 25 anos, sonho que retorno à escola e reencontro meus velhos amigos.

Os sonhos nunca são iguais e esqueço-os até a metade do dia. Já conversei com outros companheiros de turma e descobri que isso não é um privilégio meu. Por isso, sempre repetimos que aquela escola nos marcou a ferro e fogo.

Hoje resolvi descrever o tal sonho, enquanto ainda lembro. Agora mesmo. Ainda sentado na cama. Antes do café da manhã. Não convém arriscar esse sentimento de realidade, que me permeia neste momento.

Noite passada retornei para um dia que não existiu. Entretanto ele era um compacto dos momentos finais de minha jornada na pequena cidade de Barbacena. O interessante, ou assustador era, que eu tinha a plena consciência de que estava ali enviado do futuro. E como tal, sabia o que este futuro reservava a cada um dos meus amigos e companheiros de turma.

Tenho quarenta e poucos anos, mas como éramos uma turma muito grande, algo em torno de 300 garotos, muitos desses amigos já fizeram a passagem. Eu diria, que muito mais do que a média dos amigos de um adolescente normal. Talvez pela própria profissão que escolheram (aviadores), ficaram muito mais expostos a algumas fatalidades. Isso aumentou expressivamente esses “acasos”.

O sonho virou angústia na medida em que eu encontrava alguns desses, que eu sabia que teriam uma breve passagem. Eu andava pelos pátios (a escola tinha muitos pátios: Pátio das Paineiras, Pátio da Bandeira, Pátio do Rancho etc) e mal conseguia conter o choro. Sentia um aperto na garganta todo o tempo. Meus companheiros de turma não ligavam. Eles não sabiam, que eu vinha do futuro. Eu era só mais um deles. Entretanto, como que vindo de uma nave espacial, encontrei uma grande amiga dos dias de hoje e ela teve a preocupação de saber o motivo de minha angústia e choro. Entre soluços eu dizia a ela:

- Carol, não diga a ninguém, mas eu estou vindo de trinta anos do futuro. – o tempo deve contar diferente neste outro plano, pois como eu disse no início se passaram apenas 25. Continuei a explicar: – Eu sei o que vai acontecer a cada um desses meus amigos.

Carol, mostrando a compreensão que sempre dispensa aos sonhadores, pois ela é poetisa e, portanto escolada nesse negócio de sonhar, me deu um grande abraço e perguntou em tom de brincadeira:

- E de mim o que você sabe?

- Sei que você vai quebrar o cotovelo.

Pôxa! Com tanta coisa boa pra dizer, fui dizer logo isso! Caprichosamente, os sonhos não nos permitem gentilezas ou hipocrisias. Com sua ajuda, magicamente consegui voltar ao sonho original.

O momento mais dramático foi quando avistei Flávio Luis. Eu tentava me aproximar dele, mas quando ia chegando perto, tudo virava água. A angústia aumentava ao passo em que eu percebia que o sonho ia se desfazendo. O foco ia mudando e eu sabia que só teria outra chance, num sonho futuro e incerto.

As coisas começaram a se misturar e me vi conversando com minha tia Rita sobre, seu falecido marido e tio muito querido também. O tio Angelino. Esse eu não consegui nem mesmo ver. Talvez porque ele já estivesse entre nós, para aqueles que acreditam em reencarnação ou talvez por já estar no reino dos céus, para os que não acreditam. Como disse antes, qualquer que seja a sua fé, ela lhe confortará.

Lembro que nos últimos momentos eu estava em uma espécie de balcão de bar e aguardava o início de um jogo de vôlei entre o terceiro e o segundo ano. Foi quando percebi bem ao meu alcance o amigo Flávio Luis. Chamei-o e, meio que dividido entre o grupo de jogadores, que já se reunia no meio da quadra para o círculo pré-jogo, e o meu chamado, resolveu me atender. Aproximou-se, ficando o balcão entre nós, mas apesar disso pude dar-lhe um forte e caloroso abraço, regado a lágrimas e palavras de agradecimento por aquela amizade.

Como eu, ele não seguiu a carreira militar. Tornou-se médico, mas não tive coragem de lhe contar o que o futuro lhe reservava. Fiquei satisfeito de vê-lo feliz, fazendo uma das coisas de que mais gostava: jogar vôlei pela turma 85 da EPCAR.

Acordei e fiz uma pequena prece por meu amigo. Sei que ele está em boas mãos e nos assistindo com um sorriso de canto de boca peculiar. Talvez até esteja comendo alguns biscoitos de chocolate recheado, que ele devorava escondido com a cabeça enfiada no armário para não precisar dividir com ninguém.

Até a próxima, amigo. Foi bom lhe reencontrar.

PS.: A Turma 85 da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, marcou aquela instituição e vice-versa. A turma de garotos fez a transição de um momento histórico de um país que abandonava a ditadura e abria as portas para a democracia. Estes conceitos eram estranhos àqueles meninos de 14 a 18 anos, que viviam numa dicotomia civil/militar. As histórias e estórias desta turma estão contadas e registradas para a eternidade no livro “Sai de Baixo! A história e as estórias da melhor turma da EPCAR” de Alexandre Calixto. Disponível pelo e-mail: livro_saidebaixo@terra.com.br

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