
Respeito todas as religiões e credos. Acho que a fé é um combustível indispensável para enfrentarmos momentos difíceis. A crônica que escrevo agora poderia muito bem se tratar de um texto psicografado ou simplesmente da tradução de uma capacidade da mente humana de ir ao passado, ou mesmo de fazer contato com pessoas que amamos demais. Uma espécie de mediunidade.
Já sonhei coisas que me pareceram tão reais, que tomo como experiências vividas. Já toquei guitarra com os Rolling Stones num show memorável, onde surpreendentemente o meu inglês fluía com uma naturalidade, que um certo General, boquiaberto, sem que conseguisse “boquiafechar”diria: “Nunca vi semelhante coisa”.
Para situar o leitor confesso que duas coisas marcaram muito minha existência até os dias de hoje. Uma delas foi minha passagem pela Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR para os íntimos e BQ para os iniciados).
Desde que deixei aquele sítio, onde passei três anos de minha vida e onde fiz amizades fraternais que trago comigo até os dias de hoje, pelo menos duas ou três vezes ao ano, há 25 anos, sonho que retorno à escola e reencontro meus velhos amigos.
Os sonhos nunca são iguais e esqueço-os até a metade do dia. Já conversei com outros companheiros de turma e descobri que isso não é um privilégio meu. Por isso, sempre repetimos que aquela escola nos marcou a ferro e fogo.
Hoje resolvi descrever o tal sonho, enquanto ainda lembro. Agora mesmo. Ainda sentado na cama. Antes do café da manhã. Não convém arriscar esse sentimento de realidade, que me permeia neste momento.
Noite passada retornei para um dia que não existiu. Entretanto ele era um compacto dos momentos finais de minha jornada na pequena cidade de Barbacena. O interessante, ou assustador era, que eu tinha a plena consciência de que estava ali enviado do futuro. E como tal, sabia o que este futuro reservava a cada um dos meus amigos e companheiros de turma.
Tenho quarenta e poucos anos, mas como éramos uma turma muito grande, algo em torno de 300 garotos, muitos desses amigos já fizeram a passagem. Eu diria, que muito mais do que a média dos amigos de um adolescente normal. Talvez pela própria profissão que escolheram (aviadores), ficaram muito mais expostos a algumas fatalidades. Isso aumentou expressivamente esses “acasos”.
O sonho virou angústia na medida em que eu encontrava alguns desses, que eu sabia que teriam uma breve passagem. Eu andava pelos pátios (a escola tinha muitos pátios: Pátio das Paineiras, Pátio da Bandeira, Pátio do Rancho etc) e mal conseguia conter o choro. Sentia um aperto na garganta todo o tempo. Meus companheiros de turma não ligavam. Eles não sabiam, que eu vinha do futuro. Eu era só mais um deles. Entretanto, como que vindo de uma nave espacial, encontrei uma grande amiga dos dias de hoje e ela teve a preocupação de saber o motivo de minha angústia e choro. Entre soluços eu dizia a ela:
- Carol, não diga a ninguém, mas eu estou vindo de trinta anos do futuro. – o tempo deve contar diferente neste outro plano, pois como eu disse no início se passaram apenas 25. Continuei a explicar: – Eu sei o que vai acontecer a cada um desses meus amigos.
Carol, mostrando a compreensão que sempre dispensa aos sonhadores, pois ela é poetisa e, portanto escolada nesse negócio de sonhar, me deu um grande abraço e perguntou em tom de brincadeira:
- E de mim o que você sabe?
- Sei que você vai quebrar o cotovelo.
Pôxa! Com tanta coisa boa pra dizer, fui dizer logo isso! Caprichosamente, os sonhos não nos permitem gentilezas ou hipocrisias. Com sua ajuda, magicamente consegui voltar ao sonho original.
O momento mais dramático foi quando avistei Flávio Luis. Eu tentava me aproximar dele, mas quando ia chegando perto, tudo virava água. A angústia aumentava ao passo em que eu percebia que o sonho ia se desfazendo. O foco ia mudando e eu sabia que só teria outra chance, num sonho futuro e incerto.
As coisas começaram a se misturar e me vi conversando com minha tia Rita sobre, seu falecido marido e tio muito querido também. O tio Angelino. Esse eu não consegui nem mesmo ver. Talvez porque ele já estivesse entre nós, para aqueles que acreditam em reencarnação ou talvez por já estar no reino dos céus, para os que não acreditam. Como disse antes, qualquer que seja a sua fé, ela lhe confortará.
Lembro que nos últimos momentos eu estava em uma espécie de balcão de bar e aguardava o início de um jogo de vôlei entre o terceiro e o segundo ano. Foi quando percebi bem ao meu alcance o amigo Flávio Luis. Chamei-o e, meio que dividido entre o grupo de jogadores, que já se reunia no meio da quadra para o círculo pré-jogo, e o meu chamado, resolveu me atender. Aproximou-se, ficando o balcão entre nós, mas apesar disso pude dar-lhe um forte e caloroso abraço, regado a lágrimas e palavras de agradecimento por aquela amizade.
Como eu, ele não seguiu a carreira militar. Tornou-se médico, mas não tive coragem de lhe contar o que o futuro lhe reservava. Fiquei satisfeito de vê-lo feliz, fazendo uma das coisas de que mais gostava: jogar vôlei pela turma 85 da EPCAR.
Acordei e fiz uma pequena prece por meu amigo. Sei que ele está em boas mãos e nos assistindo com um sorriso de canto de boca peculiar. Talvez até esteja comendo alguns biscoitos de chocolate recheado, que ele devorava escondido com a cabeça enfiada no armário para não precisar dividir com ninguém.
Até a próxima, amigo. Foi bom lhe reencontrar.
PS.: A Turma 85 da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, marcou aquela instituição e vice-versa. A turma de garotos fez a transição de um momento histórico de um país que abandonava a ditadura e abria as portas para a democracia. Estes conceitos eram estranhos àqueles meninos de 14 a 18 anos, que viviam numa dicotomia civil/militar. As histórias e estórias desta turma estão contadas e registradas para a eternidade no livro “Sai de Baixo! A história e as estórias da melhor turma da EPCAR” de Alexandre Calixto. Disponível pelo e-mail: livro_saidebaixo@terra.com.br